segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cinco

Estava mergulhado num breu. De repente escutou um pigarrear de garganta e uma fraca luz amarela iluminou um rosto. Não, não era um rosto. Era um rosto, mas não havia um rosto nele, como se os traços tivessem fugido dali e só ficaram alguns resquícios de suas formas. O não-rosto pigarreou ainda uma vez e depois de um rápido piscar de olhos estabeleceu-se o breu novamente, e tudo o que ele ouviu foi um grito terrivelmente agudo dizer "Você demorou". E de repente, sentiu uma necessidade incontrolável de sair correndo, e de repente abriu os olhos. Sentiu o suor saindo de seus poros, escorrendo pelo corpo. Lembrou-se de tudo. 

Sentia ainda o efeito dos três calmantes que tomara há... Olhou para relógio com sua insistente luz vermelha que quebrava o escuro do quarto, 3:48... aproximadamente quatro horas atrás. Quatro horas. Toda aquele mal estar por apenas quatro horas. Mas talvez tenha sido bom ter acordado, porque queria estar lá, queria mesmo fazer aquilo e tinha que ser naquele momento.  Três calmantes não seriam suficientes para fazê-lo mudar de ideia. 

Acendeu a luz do quarto, haviam roupas e objetos de toda natureza jogadas por todos os cantos, ele que odiava desordem sentia que tudo era agora uma terrível bagunça. O exterior sujo e desordenado, o interior idem, tudo em um conjunto que resultava na desordem de seus pensamentos dos quais só distinguia o desejo de estar lá, de fazer o que tinha que fazer, sabia que o estavam esperando, mesmo que não soubessem disso, eles já o esperavam, não podia demorar. Resolveu tomar um banho antes de ir, o suor provocado por aquele sonho horrível o incomodava.

Enquanto os pingos d'água caiam sobre seu corpo repassava o texto, tivera o cuidado de dividir o plano que executaria naquela madrugada em atos, como em uma peça de teatro, peça em que não classificaria as personagens em mocinhos e vilões, não sabia ao certo, mesmo sendo ele a protagonista, qual papel ocupava e não queria pensar nisso. Sabia o texto na ponta da língua, era tudo.

Saiu do apartamento, não trancou a porta, tinha certeza que nada mais importaria depois daquilo e quis sentir que seria verdade, quis sentir a verdade de seus atos cuidadosamente escritos sem papel nem caneta. Enquanto caminhava pelas ruas escuras sentia o cheiro do sereno caindo leve sobre a cidade, a mesma cidade onde havia crescido e vivido, a mesma cidade onde jogaria tudo para o alto, onde passava feito tempestade pelas ruas sem pensar nas consequências.

Dobrou a última esquina que dobraria antes de chegar ao seu destino, mas os calmantes que o entorpeciam o impediram de reparar que do outro lado da rua escura saia um homem que vinha em sua direção, o homem que o mandou dar seus pertences mas que de uma forma que ele não parecia capaz de compreender, talvez por estar concentrado de mais no que tinha que fazer, ma não fez. O homem disparou cinco tiros naquela noite e saiu correndo pelas ruas daquela cidade.    

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